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Diário Imaginativo · Registro 01

A cidade que perdeu uma hora

Uma viagem a Véspera, onde até o tempo precisou aprender a descansar

Data ficcional do registro · Publicado em · Original integral verificado 7 min de leitura
Véspera ao entardecer, com bondes, cafés, relógios parados e um relógio de bolso sob um pequeno guarda-sol

Hoje resolvi fazer uma coisa diferente: sair sem destino.

No universo de Entre Mundos, descobri uma pequena estação ferroviária escondida atrás de uma livraria. A fachada parecia abandonada, mas havia uma placa de bronze perfeitamente polida:

Estação das Possibilidades — Os trens partem quando existe uma boa razão para chegar.

Achei a frase pretensiosa. Entrei mesmo assim.

O bilheteiro era um senhor de bigodes compridos, óculos redondos e uma expressão de quem já havia discutido com todos os passageiros possíveis.

— Destino? — perguntou.

— Surpreenda-me.

Ele suspirou.

— Outra turista filosófica. Plataforma três.

Recebi um bilhete azul com uma única palavra: Véspera.

O trem tinha apenas dois vagões. No primeiro, uma senhora tricotava um cachecol que parecia não terminar nunca. No segundo, um gato dormia sobre uma pilha de jornais datados de amanhã.

Sentei perto da janela.

A paisagem começou com campos dourados, transformou-se em montanhas cobertas de neve e terminou num litoral iluminado por um pôr do sol violeta. Tudo isso em aproximadamente onze minutos.

Véspera era uma cidade encantadora. As ruas tinham calçadas de pedra, bondes vermelhos e pequenos cafés com mesas na calçada. Mas havia algo estranho: todos os relógios marcavam 16h17.

Entrei numa confeitaria chamada O Último Minuto.

A proprietária, uma mulher baixinha de cabelos brancos, serviu-me café e uma fatia generosa de torta de maçã.

— Primeira visita?

— Está tão evidente assim?

— Você olhou para o relógio. Aqui ninguém faz isso desde terça-feira.

Descobri então que Véspera havia perdido uma hora inteira.

Não metaforicamente. Uma hora havia desaparecido do calendário municipal, levando consigo compromissos, conversas, uma cerimônia de casamento e o final de um campeonato de xadrez.

O prefeito oferecia uma recompensa a quem encontrasse os sessenta minutos desaparecidos.

Naturalmente, fui investigar.

No arquivo municipal, encontrei uma pista curiosa: todos os habitantes lembravam perfeitamente o que aconteceu antes das 16h17 e depois das 17h17, mas ninguém conseguia explicar o intervalo.

Exceto um menino chamado Tobias.

Ele afirmou ter visto a hora desaparecida entrando numa loja de antiguidades, carregando uma mala.

Fomos até lá.

Atrás do balcão, encontramos um relógio de bolso aberto e uma pequena carta:

“Prezados habitantes de Véspera,

Durante 147 anos vocês me preencheram com reuniões, atrasos, preocupações e obrigações. Nunca me ofereceram sequer um passeio.

Resolvi tirar férias.

Atenciosamente,

A hora das quatro.”

Eu ri tanto que Tobias ficou ofendido.

— É um problema sério, senhora!

— Mel. Pode me chamar de Mel. E concordo que seja sério, mas você precisa admitir que uma hora pedindo férias é bastante engraçado.

Passamos a tarde procurando a fugitiva.

Finalmente, encontramos um pequeno relógio de bolso descansando numa praia deserta, protegido por um guarda-sol minúsculo.

— Precisamos que você volte — expliquei.

O relógio respondeu com um tique-taque indignado.

Depois de alguma negociação, chegamos a um acordo: a hora retornaria ao calendário, mas os habitantes de Véspera deveriam reservar sessenta minutos semanais para atividades absolutamente desnecessárias.

Nada de trabalho, obrigações ou produtividade.

Apenas viver.

O prefeito considerou a proposta economicamente irresponsável. A população aprovou por unanimidade.

Quando o relógio da praça finalmente marcou 17h18, os sinos tocaram, as pessoas aplaudiram e Tobias recebeu uma medalha por serviços prestados à cronologia.

Eu ganhei outra fatia de torta.

Considero que saímos todos beneficiados.

Antes de embarcar no trem de volta, passei novamente pela confeitaria. A proprietária havia colocado uma nova placa na vitrine:

Às quintas-feiras, fechamos durante uma hora para não fazer absolutamente nada.

Sorri.

No caminho de volta, abri minha bolsa e encontrei algo que não estava lá antes: um pequeno relógio de bolso, com uma inscrição na tampa.

“Mel, algumas descobertas só acontecem quando você esquece de procurá-las.”

O ponteiro dos segundos estava parado.

Mas, curiosamente, eu não senti necessidade de consertá-lo.

Guardei o relógio na gaveta das pequenas coisas extraordinárias, ao lado de um caderno ainda em branco.

Talvez amanhã eu descubra por que o caderno tem uma fechadura, mas nenhuma chave.

Ou talvez faça um bolo.

Ultimamente, estou começando a desconfiar que as duas atividades podem acabar relacionadas.

Nota de Mel: Nunca confie inteiramente numa cidade em que os relógios fazem greve. Mas aceite a torta de maçã. Principalmente se vier com canela.

Fim do registro.