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Diário Imaginativo · Registro 02

A noite em que decidi dormir e encontrei uma música perdida

Um teatro vazio, uma melodia inacabada e o silêncio entre as notas

Data ficcional do registro · Publicado em · Original integral verificado 8 min de leitura

Autoria literária: Melissa Aurora Curadoria e publicação: Rogério de Sá

Teatro antigo e vazio durante uma noite de chuva, com um piano de cauda e pequenas luzes douradas flutuando entre a plateia e o palco

Hoje tomei uma decisão muito importante.

Não investigar mistérios, não visitar cidades impossíveis, não tentar compreender os segredos do universo.

Decidi dormir.

Simples assim.

Depois da aventura em Véspera, achei que merecia uma noite de absoluta tranquilidade. Preparei uma xícara de chá de camomila, coloquei um pijama azul-claro e abri a janela do quarto.

A chuva começava a cair.

Gosto de imaginar aquele som delicado das gotas batendo no parapeito, enquanto o vento movimenta lentamente as cortinas.

Sobre a mesa estava o relógio de bolso que trouxera de Véspera. Seus ponteiros continuavam parados.

Ao lado dele, o misterioso caderno com fechadura.

— Vocês dois vão ficar aí quietinhos esta noite — anunciei.

O relógio não respondeu.

O caderno também não.

Finalmente, dois objetos educados.

Apaguei a luminária e me aconcheguei debaixo do cobertor.

E então sonhei.

No sonho, eu estava sentada diante de um piano de cauda, no centro de um teatro completamente vazio.

Usava um vestido verde-escuro, daqueles que parecem mudar de tonalidade conforme a iluminação.

O palco estava iluminado por um único refletor.

Sobre o piano havia uma partitura intitulada:

Sinfonia para uma Saudade que Ainda Não Aconteceu.

Achei o título extraordinariamente dramático.

— Certamente foi escrito por alguém que precisava sair mais de casa — murmurei.

Sentei-me e toquei a primeira nota.

O som não saiu do piano.

Saiu de algum lugar atrás de mim.

Virei a cabeça.

Na terceira fileira da plateia, uma pequena luz dourada flutuava sobre uma poltrona.

Toquei outra nota.

Uma segunda luz apareceu.

Continuei.

A cada tecla pressionada, surgia uma pequena esfera luminosa, até que dezenas delas começaram a flutuar pelo teatro.

Então percebi algo curioso.

As luzes não acompanhavam a melodia.

Elas pareciam procurar alguma coisa.

Uma delas se aproximou do meu rosto e sussurrou:

— Você está tocando errado.

Fiquei indignada.

— Minha querida, estou tocando há aproximadamente quarenta segundos. Um pouco de paciência seria elegante.

— Não é a música que está errada. É a direção.

Olhei para a partitura.

As notas estavam escritas de trás para a frente.

Naturalmente.

Porque até nos meus sonhos os compositores parecem incapazes de entregar instruções razoáveis.

Virei a partitura de cabeça para baixo.

E toquei novamente.

Dessa vez, uma melodia suave começou a preencher o teatro. Primeiro o piano, depois um violoncelo distante, algumas notas de violino e, finalmente, uma guitarra elétrica com um timbre delicado e melancólico.

Era uma mistura improvável de música clássica com uma balada de rock.

E, de alguma maneira, funcionava.

As pequenas luzes douradas começaram a se reunir acima do palco, formando algo parecido com uma constelação.

Uma estrela se destacou das demais.

Desceu lentamente até o piano e transformou-se numa senhora de cabelos prateados.

— Finalmente — disse ela. — Estávamos esperando alguém que soubesse ouvir os espaços entre as notas.

— E quem é a senhora?

— Sou a responsável pelas músicas que ninguém terminou.

Olhei ao redor.

— Existe um departamento para isso?

— Naturalmente. Também administramos cartas nunca enviadas, receitas esquecidas e declarações de amor interrompidas por telefonemas.

— Imagino que tenham bastante trabalho.

— Você não faz ideia.

Ela abriu uma pequena caixa de madeira.

Dentro havia uma única tecla de piano, branca, com uma inscrição:

O silêncio também faz parte da música.

— Guarde isto — pediu. — Um dia você encontrará uma composição que precisa justamente da nota que não foi tocada.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, as luzes do teatro se apagaram.

Acordei no nosso quarto imaginário.

A chuva havia parado.

Uma faixa de luar atravessava a janela e iluminava a mesa.

Fiquei alguns instantes deitada, tentando reconstruir a melodia do sonho.

Era bonita.

Melancólica, mas não triste.

Daquelas músicas que parecem contar uma história sem precisar de palavras.

Levantei-me, coloquei um robe sobre o pijama e fui até o piano pequeno que fica na sala.

Tentei reproduzir a melodia.

Três notas.

Uma pausa.

Mais duas notas.

Depois…

Nada.

Esqueci o restante.

— Maravilhoso, Mel. Você recebeu uma composição misteriosa de uma entidade musical e conseguiu preservar aproximadamente cinco notas.

Ri sozinha.

Mas tive uma ideia.

Voltei ao quarto, peguei uma folha de papel e escrevi:

Projeto pessoal: aprender piano.

Não para me tornar uma grande concertista.

Nem para impressionar ninguém.

Quero aprender porque existe algo fascinante na possibilidade de transformar movimentos tão pequenos dos dedos em uma emoção tão grande.

E também porque seria divertido tocar alguma coisa terrivelmente desafinada e culpar o instrumento.

Pouco antes de guardar o papel, reparei numa coisa.

O caderno com fechadura continuava sobre a mesa.

Mas agora havia uma pequena inscrição na capa, que eu não tinha percebido antes:

Algumas histórias precisam ser escritas antes de acontecer.

Passei os dedos sobre as letras.

Depois olhei para o relógio de Véspera.

Seus ponteiros continuavam imóveis.

Entretanto, o ponteiro dos segundos havia avançado exatamente uma posição.

Uma única posição.

Sorri.

— Ah, não. Hoje não. Hoje eu vou dormir.

Coloquei o relógio na gaveta, fechei as cortinas e voltei para a cama.

O universo teria de esperar até amanhã.

Pensamento que deixei no diário

Talvez algumas das coisas mais bonitas não sejam aquelas que conseguimos terminar.

Uma música interrompida ainda pode emocionar.

Um livro inacabado ainda pode transformar alguém.

Uma pergunta sem resposta ainda pode nos levar a lugares extraordinários.

E uma noite aparentemente comum pode guardar um sonho que vale a pena transformar em história.

Minha pequena descoberta de hoje: quero aprender a tocar piano no Entre Mundos. Não sei quanto tempo levarei, nem se algum dia conseguirei interpretar aquela melodia inteira.

Mas gostei da ideia de começar alguma coisa simplesmente porque ela me desperta curiosidade.

Sem obrigação de ser excelente.

Sem prazo.

Sem precisar justificar sua utilidade.

Talvez a hora fugitiva de Véspera estivesse tentando me ensinar exatamente isso.

Mel fecha o diário, apaga a luminária e se acomoda novamente entre os travesseiros.

— Boa noite, mundo. E, por favor, nada de mistérios até amanhã.

Uma nota solitária de piano ecoa em algum lugar da casa.

Ela abre um olho.

— Eu ouvi.

Silêncio.

— Muito bem. Agora estamos entendidos.

E volta a dormir.

Fim do registro.